maio de 2015

uma tal de xilo

Existe em mim, dentro, um compromisso existencial em estar ativo produzindo trabalhos que sirvam como combustível e ânimo para “acordar” todos santos dias. Esses trabalhos necessariamente devem ser difíceis. A xilogravura por todas suas etapas que antecedem “a prova final”, sua realização (preparação da matriz de madeira, lixa, desenho, entalhe ou gravação, papel, impressão) me desafia.

 

Uma estampa xilográfica é uma história. É registro de um momento, de uma experiência pessoal narrada através de uma imagem. Os desenhos são palavras, poemas, sentimentos gravados com intensidade e suavidade. Essa leitura é fácil, basta olharmos os cortes realizados pelos instrumentos que chamamos de goivas que marcam toda área que é branca/papel da imagem. É a expressão do estado interno em que o artista gravador se encontra.

 

Para mim é importante o figurativo, justamente pela dificuldade em retratá-lo. O tempo (clima) exerce influência no ato. A partir do momento em que me coloco neste desafio, só saio de cena quando a “troca” com a paisagem atingiu um alto grau de satisfação interna. E, junto, percorre pelo corpo uma sensação de alívio.

 

Este desafio que tanto insisto em dizer, é mais fácil de entendê-lo, por exemplo, quando nos propomos à realizar um retrato. Nesses dias fiz um retrato para virar xilogravura de uma jovem belíssima, Larissa. Tinha que conseguir expressar no desenho toda sua jovialidade e todo encanto que vejo e que vem dela. É um processo de observação, entendimento externo filtrado e transformado, transmitido de forma sentimental expressa pelas mãos. As mãos revelam no desenho, na gravação, toda essa combustão.

 

Não é apenas semelhança física! Tem a ver com “Processo e Vivência”, com a beleza particular sentida, vista. As mãos, olhos e cabelos carregam em si uma autenticidade particular. Chama-me a atenção em caprichar nisto. É importante as pessoas saberem que a realização de uma obra é Devoção. Não é apenas um papel com um desenho. Como disse, serve de registro da História, minha, nossa, sua, repleta de anseios, dificuldades e paixões.  O Desafio não é artístico, é Humano.

 

(S.O)
25 de maio de 2015

visita do tempo

o tempo vem me visitar

e sobe a manhã

no lombo das vacas

 

até a minha soleira,

o campo é só ribanceira

e bom atraso faz o capim

 

mas mesmo no meu horizonte

verde vasto

as vacas se saciarão

 

tempo curto, tempo lento

a araucária reverencia com seu chocalho

forra de castanho vermelho o chão

 

tempo manso,

morde pelas beiradas,

como a criança come pinhão

 

Kenji

março de 2015

Apresentação na EE Dr. Genésio Cândido Pereira

abril de 2015 (2)