agosto de 2015

Das imagens

A vivência em um lugar tão especial como São Bento do Sapucaí, onde o silêncio permeia e se faz presente por todo o espaço, me faz procurar o universo poético próprio do ambiente, em busca de sua identidade. Um movimento oposto ao que vinha me acontecendo em São Paulo, onde eu procurava mais a minha própria identidade, o meu universo pessoal, o meu silêncio entre tantas manifestações caóticas e sobrepostas da cidade.

Adentrar nesse ambiente através da vivência de residência artística se deu de forma natural e gradativa, de acordo com a intimidade crescente. A primeiro momento, vieram as paisagens, depois os retratos das pessoas e, em seguida, as cenas das pessoas em seus afazeres. Poucas vezes fiz cenas narrativas, tem sido um aprendizado. Mas eu não conseguiria escapar de fazê-las, é um jeito de compreender o ambiente e seu contexto. O embate da natureza ao redor propiciou cenas do gesto da água, do movimento do céu e da solidez abrupta das pedras. São forças muito presentes nessa geografia acidentada da Serra da Mantiqueira (a montanha que chora). Aqui o grande impacto na imagem é a formação da serra. O relevo ou acidente geográfico é o responsável pelas muitas curvas, diagonais e pontos de vista a partir de diferentes lugares sobre um mesmo objeto.

A chave aqui talvez seja o contraste. O contraste da luz solar e da sombra, o que ela alcança e o que é inalcançável. Afirmo isto tanto em relação à  composição de cada imagem quanto em relação a geografia do lugar. É nas dobras do relevo onde ocorrem os contrastes e são esses lugares que me despertam curiosidade. Tudo acontece nas dobras: a formação da vegetação, o curso d’água, a manifestação cultural das pessoas que ali vivem, sua tradição.

A arte para mim é uma forma de relacionar-me com a vida. E o desenho é a principal ferramenta para compreender as suas  manifestações. Todas essas imagens que ando produzindo são consequências das experiências aqui vividas. A imagem surge depois. A experiência primeiro.  Eu poderia passar oito meses sentado à mesa sem sair de casa desenhando sem parar, mas nenhum desenho valeria, nenhum faria sentido para mim. O que mais me importa aqui nesse projeto é o caminho e não somente o destino. E é o caminho percorrido a pé, de mala nas costas, que eu desenho. Desenho de corpo inteiro, desenho com a mente, desenho com o espírito. Busco um contraste solar. Mas não o busco como um destino, busco no percurso. O caminhar é muito importante como processo. A pé, no meu próprio tempo, posso deslumbrar de diferentes vistas e ver a luz passar várias vezes sobre um mesmo objeto em diferentes ângulos.

Nessas cenas, o claro-escuro é o potencializador dos cinzas, do que está na penumbra. Sugere uma vida que não está nos extremos, que entre preto e branco, sim e não, existem muitas possibilidades. O desenvolvimento da consciência e de como percebo o mundo está vinculado ao desenho. Quanto mais sutilezas enxergo nos meio-tons, mais percebo que a vida não se manifesta apenas na dualidade, ela é muito ampla. Penso que é preciso olhar para o que está sob intensa luz solar, para o que está na escuridão e também para o que está entre os dois. A importância maior pode estar num único ponto, mas o olhar deve ter interesse em vaguear pelo restante da imagem.  Nem sempre o mais importante está sob a luz.

Em tudo há beleza, em tudo há uma força vital, uma essência. Não me interessa a forma pela forma. A forma ou a aparência não é por puro acaso, ela existe em função do conteúdo, é espelho de sua essência. Então, mesmo que a importância esteja em um objeto, na cena cada pequeno elemento deve ser desenhado em sua essência, mesmo que apenas sugerido com pouquíssimos traços. Pois mesmo poucas linhas podem falar de muitas qualidades de uma árvore. Só que, para conseguir essa síntese, é necessário a vivência, entender os contextos da árvore. Acredito na ideia de que, para conseguir uma abordagem plena de um objeto, não devemos buscá-lo como um continente, mas como um arquipélago.  Que, para atingir um desenho preciso, não basta apenas sentar a frente do objeto e desenhá-lo infinitamente. Ele está inserido em um contexto e então a maneira de compreendê-lo pode passar por várias experiências diferentes, como cozinhar, conversar, mexer com a terra, catar pinhão, caminhar por trilhas, namorar, correr pela manhã…todas as experiências vividas no lugar de contexto mesmo que aparentemente desconexas são ilhas de um mesmo arquipélago, elas constroem a nossa compreensão de um objeto e, por conseguinte,  o desenho que fazemos dele. Por isso, cada pessoa desenha de um jeito único, pois vive experiências únicas.

A gravura em metal tem sido um meio que atende ao meu desenho. E seus procedimentos têm correspondido às necessidades das imagens.

Diante de uma natureza a ser retratada de observação, a água-forte é uma certeza, a captura do movimento da vida, de uma manifestação, através do gesto rápido e sintético, captura o todo, o movimento geral da composição.

Depois, já na casa, sobre a mesa, utilizo do buril para esmiuçar os meio-tons. É o buril que cria uma estrutura sólida e precisa da cena, através de tramas de linhas, cria a base do contraste, peso, volume, luz e sombra, profundidade. Cria uma objetividade e dá veracidade aos detalhes.

E a ponta seca é o gesto espontâneo do errar. A  imagem cristalizada de certezas quando recebe o toque da ponta seca ganha uma força trêmula, viva. Que vem do caráter direto, impulsivo e impermanente do corte com rebarba. É um corte sem garantia, é resposta direta e imediata da intuição. Como a própria vida. E é nessa “imperfeição” que mora o acaso e o erro. O longo errar das experiências vividas até então, dos caminhos percorridos. Demorei a entender isso. A aceitar a incerteza e a impermanência como parte natural da vida.

Penso que é importante aprender a lidar com essas diferentes naturezas, distinguindo suas qualidades e sutilezas para tornar nossa compreensão mais ampla, para estarmos mais despertos.

 

Rafael Kenji

Estar presente

Uma pessoa se compromete realmente a aprender algo quando ela se dá conta que isso faz parte do seu projeto de vida.

Todo o esforço deve ser nesse sentido.

Eu não tenho nenhuma certeza de como será a vida daqui a um ano. Não consigo imaginar…

Hoje, nesse exato momento, no percorrer deste projeto, sinto uma energia muito forte, me sinto realmente presente. Acordado para muitas coisas. Com um futuro nebuloso e com um passado sendo revisto o tempo todo. O silêncio da montanha propicia isso. Consigo perceber certas limitações minhas, meus defeitos, velhos hábitos ruins, dificuldades de lidar e relacionar com pessoas. Aqui nesta área rural de São Bento do Sapucaí, estou fora da minha área de conforto. São situações novas pedindo soluções novas.

Estar aqui tem sido um aprendizado diário. E aos poucos vou me percebendo em diferentes condições. Estar aqui e me dedicar a uma atividade que eu gosto e que talvez seja a melhor coisa que eu saiba fazer nessa vida me alimenta, alimenta uma renovação constante.

Poder receber os amigos nesta casa e levá-los para conhecer os lugares que têm me alimentado é só felicidade, poder compartilhar essa alegria.

Sentir o  corpo, entender o seu limite. Tem sido uma experiência tão intensa que a minha única certeza é estar aqui presente e vivo.

Percorro todos estes morros com meus pés.

Suor, o sol queimando, a roupa encharcada. Um passo atrás do outro e são muitas estórias.

Molho a cabeça numa bica d’água e tropeço nesse horizonte….. Eu não tenho certeza alguma de como será a minha vida daqui a um ano. Tudo o que sei é que fui buscar uma imagem minha pela manhã e voltei com riscos numa placa de cobre. O dia está quente e incrível. E volto para a casa amarela com alguns quilômetros na sola da bota, com a estrada de terra impregnada no corpo e na alma. Espero que o banho de ácido revele a gravação de todo o caminho da imagem, de todo o meu caminho.

O Milton Nascimento é o exemplo de artista pra mim, que admiro muito: vida, obra e postura.

E não por acaso, cantarolo e assobio algumas de suas músicas pela estrada, nessas idas e vindas desse projeto. E Nos bailes da vida resume tudo:

 

Foi nos bailes da vida ou num bar
Em troca de pão
Que muita gente boa pôs o pé na profissão
De tocar um instrumento e de cantar
Não importando se quem pagou quis ouvir
Foi assim

Cantar era buscar o caminho
Que vai dar no sol
Tenho comigo as lembranças do que eu era
Para cantar nada era longe tudo tão bom
Até a estrada de terra na boléia de caminhão
Era assim

Com a roupa encharcada e a alma
Repleta de chão
Todo artista tem de ir aonde o povo está
Se for assim, assim será
Cantando me disfarço e não me canso
De viver nem de cantar

 

Rafael Kenji