Das imagens

A vivência em um lugar tão especial como São Bento do Sapucaí, onde o silêncio permeia e se faz presente por todo o espaço, me faz procurar o universo poético próprio do ambiente, em busca de sua identidade. Um movimento oposto ao que vinha me acontecendo em São Paulo, onde eu procurava mais a minha própria identidade, o meu universo pessoal, o meu silêncio entre tantas manifestações caóticas e sobrepostas da cidade.

Adentrar nesse ambiente através da vivência de residência artística se deu de forma natural e gradativa, de acordo com a intimidade crescente. A primeiro momento, vieram as paisagens, depois os retratos das pessoas e, em seguida, as cenas das pessoas em seus afazeres. Poucas vezes fiz cenas narrativas, tem sido um aprendizado. Mas eu não conseguiria escapar de fazê-las, é um jeito de compreender o ambiente e seu contexto. O embate da natureza ao redor propiciou cenas do gesto da água, do movimento do céu e da solidez abrupta das pedras. São forças muito presentes nessa geografia acidentada da Serra da Mantiqueira (a montanha que chora). Aqui o grande impacto na imagem é a formação da serra. O relevo ou acidente geográfico é o responsável pelas muitas curvas, diagonais e pontos de vista a partir de diferentes lugares sobre um mesmo objeto.

A chave aqui talvez seja o contraste. O contraste da luz solar e da sombra, o que ela alcança e o que é inalcançável. Afirmo isto tanto em relação à  composição de cada imagem quanto em relação a geografia do lugar. É nas dobras do relevo onde ocorrem os contrastes e são esses lugares que me despertam curiosidade. Tudo acontece nas dobras: a formação da vegetação, o curso d’água, a manifestação cultural das pessoas que ali vivem, sua tradição.

A arte para mim é uma forma de relacionar-me com a vida. E o desenho é a principal ferramenta para compreender as suas  manifestações. Todas essas imagens que ando produzindo são consequências das experiências aqui vividas. A imagem surge depois. A experiência primeiro.  Eu poderia passar oito meses sentado à mesa sem sair de casa desenhando sem parar, mas nenhum desenho valeria, nenhum faria sentido para mim. O que mais me importa aqui nesse projeto é o caminho e não somente o destino. E é o caminho percorrido a pé, de mala nas costas, que eu desenho. Desenho de corpo inteiro, desenho com a mente, desenho com o espírito. Busco um contraste solar. Mas não o busco como um destino, busco no percurso. O caminhar é muito importante como processo. A pé, no meu próprio tempo, posso deslumbrar de diferentes vistas e ver a luz passar várias vezes sobre um mesmo objeto em diferentes ângulos.

Nessas cenas, o claro-escuro é o potencializador dos cinzas, do que está na penumbra. Sugere uma vida que não está nos extremos, que entre preto e branco, sim e não, existem muitas possibilidades. O desenvolvimento da consciência e de como percebo o mundo está vinculado ao desenho. Quanto mais sutilezas enxergo nos meio-tons, mais percebo que a vida não se manifesta apenas na dualidade, ela é muito ampla. Penso que é preciso olhar para o que está sob intensa luz solar, para o que está na escuridão e também para o que está entre os dois. A importância maior pode estar num único ponto, mas o olhar deve ter interesse em vaguear pelo restante da imagem.  Nem sempre o mais importante está sob a luz.

Em tudo há beleza, em tudo há uma força vital, uma essência. Não me interessa a forma pela forma. A forma ou a aparência não é por puro acaso, ela existe em função do conteúdo, é espelho de sua essência. Então, mesmo que a importância esteja em um objeto, na cena cada pequeno elemento deve ser desenhado em sua essência, mesmo que apenas sugerido com pouquíssimos traços. Pois mesmo poucas linhas podem falar de muitas qualidades de uma árvore. Só que, para conseguir essa síntese, é necessário a vivência, entender os contextos da árvore. Acredito na ideia de que, para conseguir uma abordagem plena de um objeto, não devemos buscá-lo como um continente, mas como um arquipélago.  Que, para atingir um desenho preciso, não basta apenas sentar a frente do objeto e desenhá-lo infinitamente. Ele está inserido em um contexto e então a maneira de compreendê-lo pode passar por várias experiências diferentes, como cozinhar, conversar, mexer com a terra, catar pinhão, caminhar por trilhas, namorar, correr pela manhã…todas as experiências vividas no lugar de contexto mesmo que aparentemente desconexas são ilhas de um mesmo arquipélago, elas constroem a nossa compreensão de um objeto e, por conseguinte,  o desenho que fazemos dele. Por isso, cada pessoa desenha de um jeito único, pois vive experiências únicas.

A gravura em metal tem sido um meio que atende ao meu desenho. E seus procedimentos têm correspondido às necessidades das imagens.

Diante de uma natureza a ser retratada de observação, a água-forte é uma certeza, a captura do movimento da vida, de uma manifestação, através do gesto rápido e sintético, captura o todo, o movimento geral da composição.

Depois, já na casa, sobre a mesa, utilizo do buril para esmiuçar os meio-tons. É o buril que cria uma estrutura sólida e precisa da cena, através de tramas de linhas, cria a base do contraste, peso, volume, luz e sombra, profundidade. Cria uma objetividade e dá veracidade aos detalhes.

E a ponta seca é o gesto espontâneo do errar. A  imagem cristalizada de certezas quando recebe o toque da ponta seca ganha uma força trêmula, viva. Que vem do caráter direto, impulsivo e impermanente do corte com rebarba. É um corte sem garantia, é resposta direta e imediata da intuição. Como a própria vida. E é nessa “imperfeição” que mora o acaso e o erro. O longo errar das experiências vividas até então, dos caminhos percorridos. Demorei a entender isso. A aceitar a incerteza e a impermanência como parte natural da vida.

Penso que é importante aprender a lidar com essas diferentes naturezas, distinguindo suas qualidades e sutilezas para tornar nossa compreensão mais ampla, para estarmos mais despertos.

 

Rafael Kenji