existir, ou, sobre a oportunidade de viver

Desconsideramos agora o sofrimento. Conduzimos nossas intenções e pensamentos ao que é bom, pois é ele que nos interessa no momento. Pergunto-vos se recordam da experiência de surgir, e o primeiro abrir dos olhos neste mundo? Que experiência fabulosa não? Imagine agora, Ser mãe? Dar a “luz” a um “Ser Humano”. Digo-lhes que é transcendente. Agradecemos então o passo 1.
Seguindo, a despreocupação, novidades, alegrias e brincadeiras de Ser criança. Talvez, a melhor fase de nossa existência. Dizem que voltamos a este estágio na velhice. Opa! Se for assim, conversarei com o homem do tempo para permitir-me passar por isso.
Deixemos o passo 2, andamos ao 3, ou, o do amor juvenil, dos namoricos, dos apaixonados. Lembro-me do primeiro amor, jamais a esquecerei. Mágico!
Daí vem a tal das responsabilidades, trabalho, contas e desafios. Esse é o passo 4. Tão confuso, não? Será? Voltamos então sobre a oportunidade de viver. Movidos por um turbilhão de informações não nos damos conta e saímos do eixo. Não! Não! Vamos continuar seguindo, pois seja esta a vida da superação. Na verdade, faz todo sentido, “Ser” “superar”, “Ser” “transformar”. Sejamos humildes para reconhecer que nossa existência DEVE-SE, no mínimo, a nossa mãe. Sejamos gratos a ela. Quem além dela é capaz de doar-se inteiramente, às vezes até se auto-prejudicando para o nosso melhor?
Remando sobre as ondas dos dias buscamos o Encontro, sempre, com o novo, com o diferente, com as dificuldades que nos dá o sabor. Atravessamos lugares e desfrutamos por mais tempo aqueles com que nos atraímos, pela felicidade, por serenidade, por paz interna. Nesse estágio “somos” mais íntegros, ouvimos e falamos menos, saboreamos e comemos menos, olhamos menos e vemos mais.
Este lugar, esta oportunidade, fez-me recolher, e é por isso que sou humildemente grato a esta montanha, aos seus moradores e a todos os seus Tesouros. Durante estes oito meses não deixei de escutar por um único dia os cantos e encantos dos pássaros, e perdi a conta de quantas vezes o mesmo beija-flor, sempre pela manhã, visitou-me dentro de casa.
Aos novos amigos da Montanha que Chora agradeço, com alegria, por proporcionar-me essa riqueza que tentei transformar em estampas xilográficas. Transmito assim esse percurso com toda a verdade, enfrentando meus limites como artista nas gravações em madeiras, crendo na dependência e que as coisas não acontecem por si só, nesta oportunidade de Ser Humano.

 

S.O.

S. Bento, 21 de setembro de 2015